sábado, 8 de outubro de 2016

Poesia  de  MANUEL  ALEGRE  (contemporâneo  e  vivo )
do  livro  Praça  da Canção

Livreiro  da Esperança
Há  homens que  são  capazes
de  uma flor  onde
as  flores  não nascem .
Outros  abrem  velhas  portas
em  velhas  casas  fechadas  há  muito .
Outros ainda  despedaçam  muros
acendem  nas  praças  uma  rosa de fogo .
Tu  vendes  livros  quer dizer
entregas  a  cada  homem
teu  coração  dentro  de cada  livro.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Duas  poesias de  RUY  BELO  (1933 - 1977 )

Um prato de  sopa
Um prato de sopa  um humilde  prato  de  sopa
comovo-me  ao  vê-lo  no  dia  de festa
e  entro dentro da sopa
e sou  comido  por  mim  próprio com  lágrimas  nos  olhos

 Necrologia
 Portugal  tem nove milhões  de habitantes
Lisboa  talvez  tenha  um  milhão
Nada  disso  me pode consolar  bem  sei
Morreu  antónio  gião
eu não o  conhecia  nunca  o  conhecerei
 

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Poema  de dois  versos  de ALBERTO  CAEIRO (heterónimo de FERNANDO  PESSOA) de 8-11-1915

Um dia de  chuva  é  tão  belo como  um  dia  de  sol.
Ambos existem; cada  um  é  como  é .

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Poesia  de  RICARDO  REIS  (heterónimo de  FERNANDO   PESSOA)
 (sem título )

Para ser grande,sê inteiro:nada 
 Teu  exageres  ou  exclui.
Sê todo  em cada  coisa.Põe  quanto  és
 No  mínimo  que fazes.
Assim  em cada  lago  a  lua toda
 Brilha, porque  alta  vive .




domingo, 2 de outubro de 2016

Quatro  versos  de MÁRIO   DE   SÁ   CARNEIRO ( 18... - 19 3..,)

Eu não sou eu  nem  sou o  outro,
Sou  qualquer coisa de  intermédio:
Pilar  da  ponte  do  tédio
Que  vai de  mim   para  o Outro.

domingo, 25 de setembro de 2016

Poema  de FERNANDO  PESSOA  (1889 - 1935 )

(sem  título )

Não: não digas  nada !
Supor  o que  dirá 
A  tua  boca  velada
É ouvi-lo já.

É ouvi-lo melhor 
Do  que  o dirias.
O  que és  não  vem à flor 
Das  frases e dos  dias.

És melhor  do que tu.
Não  digas nada : sê  !
Graça do corpo  nu
Que invisível   se vê.

 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Outro poema  de MIGUEL  TORGA   (15  Fevereiro  1981 )

Depoimento
De seguro,
Posso apenas dizer que  havia  um  muro
E que foi contra ele que arremeti 
A vida  inteira.
Não.Nunca o contornei.
Nunca tentei
Ultrapassá-lo de qualquer maneira.

A honra  era  lutar
Sem esperança  de  vencer
E lutei  ferozmente  noite e  dia,
Apesar de saber
Que quanto mais  lutava  mais  perdia
E  mais funda sentia
A dor  de  me  perder.
 

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Poema de  oito versos de MIGUEL  TORGA ( 27 de Maio  1977 )

ALVORADA
Foi tudo simples:aconteceu.
O dia  amanhceu,
Acordei.
E reparei no  milagre concreto de viver.
E cantei
Como um  galo  feliz. 
O que  esse  canto diz
É que  não sei.
 

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Quarto versos de um poema de MANUEL  ALEGRE (contemporâneo e vivo ).

 Trovas do  mês de  Abril 
Foram  dias  foram  anos a  esperar por  um  só dia .
Alegrias . Desenganos . Foi o tempo  que  doía
com seus  riscos  e seus  danos .Foi a  noite  e  foi  o dia
na  esperança  de  um  só  dia .
Quatro  versos de um  soneto de Camões  (158 .)

Mudam-se os  tempos,mudam-se  as vontades,
muda-se  o ser , muda-se  a confiança;
todo  o mundo  é composto  de  mudança, 
tomando sempre  novas  qualidades.