sábado, 18 de abril de 2009

Livros (7) Marching powder


Portugal é um país mesmo bom. Apresento provas!

Livro: Marching powder

Autor: Rusty young

O livro conta a história real de um traficante de droga inglês que foi preso na Bolivia. É um relato autobiográfico. Mas é...surreal!

O tipo é preso por uma traiçao do chefe da policia do aeroporto a quem tinha subornado para lhe garantir um salvo conducto em caso de necessidade. Dali é enviado para a prisao temporária, durante a instruçao do processo. Ali, onde esteve cerca de 1 mês sem ser ouvido em tribunal, quase morre de fome e doença porque como não tinha dinheiro para pagar aos guardas para eles lhe levarem comida. Logo, nao tem comida! Nem comida nem nada mais que uma cela fria e imunda. Dali, e quase a morrer, extremamente doente, implora para o levarem ao tribunal e enviarem a prisao. Consegue porque os guardas percebem que ele não tinha mesmo dinheiro para dar-lhes. Depois de uma rápida passagem pelo tribunal despejam-no na prisao, a principal de La Paz, a capital da Bolivia. Quase a morrer passa a primeira noite na prisao, entre alucinaçoes e incredulelidade. Ninguém lhe diz nada, nem qual é a sua cela, nem como alimentar-se nem nada. Dorme ao relento num canto imundo. No dia seguinte, e já convicto que ia morrer, é abordado por um boliviano-americano que fala inglês e que tem pena e o orienta. Acolhe-o e explica-lhe como funciona tudo. Básicamente funciona tudo como fora da prisao: tudo é pago. Se quer comer é pago. Se quer assitência médica é paga. Se quer uma cela é paga. !!! Mas como alguém que acabou de ser preso e despossado de tudo (roubado pelos guardas) tem dinheiro para pagar a própria cela!? Pagar a própria cela! Ou seja, comprá-la! Literalmente. As celas, que iam desde mini apartamentos a cantos imundos, sao compradas e vendidas entre os presos, com contrato de compra e venda, e o seu valor oscila tal qual em qualquer outro mercado! O mercado varia, por exemplo, se ao EUA decidem fazer pressao para controlar o tráfico, e há uma repentina remessa de novos presos, o valor das celas sobe... E também há bairros e classes sociais dentro da prisao. E restaurantes. E lojas. E... 

Os guardas, desde o director da prisao, ao mais baixo ranking sao todos corruptos. TODOS. Inclusivé, há luta entre os guardas prisionais para serem destacados para aquela prisao, já que tem fama de ser nela que se conseguem mais e melhores “ajudas” e “comissoes”. Os advogados e juízes também estao todos metidos no esquema. Boa parte dos custos judiciais sao para untar o juiz. Não que isso signifique ser absolvido, mas pelo menos é menos provavel receber sentença máxima. Outra coisa que quase todos fazem é consumir drogas, nomeadamente cocaina, que se consomequase como café, apesar de ser ilegal e a causa principal do sobrelotamento das cadeias. 

O tipo, entretanto já recuperado e integrado descobre que a cadeia é o sitio onde se fabrica grande parte da droga produzida na Bolivia, e sem duvidas a de maior qualidade. Ou seja, a droga que ele comprava fora da prisao e traficava, e pela qual foi preso, é frabicada dentro da própria prisao! Na prisao também  vivem mulheres e crianças. As mulheres e crianças dos reclusos! Reclusos? Sim, mas não tanto. Pagando pode-se sair. Numa dessas saidas acompanhadas (e pagas) e heroí de ocasiao conhece uma tipa na discoteca. Uma israelita que estava de férias. Ele leva-a a passar a noite na sua cela na prisao! Ela gosta, apaixonam-se. Ela acaba por ficar umas semanas! E acaba por convidar os amigos dela a vir ver também este cenário surreal! Aí começa o novo negócio do nosso traficante: visitas guiadas à prisao, sobretudo para turistas ocidentais! Em algum tempo tornam-se tao populares que passam a fazer parte do roteiro turístico de guias internacionais! Mais tarde esse negócio é roubado e continuado por outros gangues da prisao! Uma das coisas normais que os turistas fazem na prisao, naturalmente, é consumir a melhor cocaína da Bolivia!


Depois deste livro, quando leio noticias sobre a América central, sobre golpes de Estado, instabilidade politica, revoluçoes, Chavez e Morales, esquerdas e direitas, sobre a violência, sobre a produçao e o tráfico de drogas, sobre eleiçoes, sobre turismo, etc., fico sempre com aquela sensaçao de que não faço a minima ideia do que se passa realmente por lá. É outro sistema, ou outro nivel. Quem sou eu para mandar bitaites, apoiar este ou aquele, ditar soluçoes, salvaçoes e razoes?!

Ao pé disto o sistema português até é...bastante...quase legal...mais ou menos sério...relativamente confiável...razoavelmente eficiente! Portugal é mesmo bom.

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